Desafio Charlie Charlie

Por em 19, agosto 2015
CCC

“Brincadeira” envolve ocultismo aparentemente inofensivo e causa mal-estar em praticantes

Escrito por Vanessa Moraes

Invocar o nome de um espírito chamado Charlie é a nova febre nas escolas. Essa “brincadeira” macabra tem mexido com a cabeça de crianças, juvenis e adolescentes em todo o Brasil desde maio deste ano, quando se popularizou na internet, pelas redes sociais. Só no Twitter, cerca de dois milhões de pessoas usaram a hashtag #CharlieCharlieChallenge (Desafio Charlie Charlie) em apenas dois dias. Essa prática tem causado mal-estar nas escolas, com registros de alunos que sofreram reações físicas e psicológicas e precisaram até mesmo de atendimento médico.

O ritual consiste em desenhar uma cruz no centro de uma folha de papel, escrever uma resposta em cada quadrante (normalmente SIM e NÃO) e posicionar dois lápis ou canetas, um sobre o outro, em cada uma das linhas. Então, os participantes dizem “Charlie, Charlie, are you there?” (Charlie, Charlie, você está aí?) e aguardam o demônio responder movendo o lápis superior, que gira em direção a uma das respostas escritas. Para finalizar, é preciso perguntar “Charlie, Charlie, can we stop?” (Charlie, Charlie, podemos parar?). Em seguida, os lápis sobrepostos devem ser quebrados para encerrar o contato com Charlie.

Em um texto publicado no portal de notícias adventistas.org, o pastor Odailson Fonseca, diretor de comunicação da Igreja Adventista para o estado de São Paulo, disse: “… sendo verdade ou mentira, assombro ou acaso, nessas entrelinhas reside mais que visível o artífice do mal tornando sua verdadeira intenção invisível: o pecado maquiado de brincadeira. Ou seja, o cessar completo e absoluto da vida – na detestável expressão da morte – como se não fosse nem tão sério, nem tão grave.”

O jornalista Michelson Borges também se manifestou em seu blog criacionismo.com.br. “…dezenas de milhares de pessoas… estão brincando com o perigo, e o verdadeiro ‘Charlie’ se divertindo um bocado”.

Adultos conheceram outras versões desse ritual. O tabuleiro ouija, “brincadeira” do copo ou do compasso já fizeram moda na vida escolar de muita gente. Mas atualmente, pais, professores, orientadores e diretores estão preocupados com a reação dos estudantes quando se arriscam a brincar com o oculto. Um exemplo disso foi o caso registrado em Manaus, Amazonas, no dia 27 de maio. Alunos de uma escola de tempo integral invocaram o “espírito”. Uma garota alegou ter visto um demônio, enquanto outra menina espalhou essa informação para toda a escola. Em entrevista ao portal de notícias G1, uma das alunas, que não quis ser identificada, afirmou que crianças desmaiaram e tiveram convulsões, e estudantes do 1º ao 6º ano começaram a se enforcar e a se bater. No dia seguinte, a direção da instituição convocou uma reunião com os pais dos estudantes e com o Conselho Tutelar da região.

Histeria em massa

Alguns psicólogos afirmam que as reações coletivas causadas nas escolas não passam de histeria em massa. Esse fenômeno é um distúrbio psicológico em que um grupo de pessoas tem, ao mesmo tempo, comportamento anormal ou adoecem sem motivo aparente. Esses surtos são mais comuns em grupos fechados, como funcionários de uma mesma empresa ou estudantes de uma mesma escola. Por causa dela, as pessoas ficam mais ansiosas e acabam perdendo o controle sobre seus atos e emoções, o que pode causar desequilíbrio nos sentidos, como audição, olfato, tato, visão e paladar. Disso derivam-se as tonturas, náuseas, fraqueza, falta de ar e até desmaios.

Em contrapartida, o especialista em parapsicologia Luciano Gomes dos Santos, que leciona na Faculdade Arnaldo, em Belo Horizonte, Minas Gerais, defende que a histeria acontece porque as pessoas entram em transe e desencadeiam toda a energia mental que armazenaram. “O indivíduo que vai estabelecer a brincadeira, de forma antecipada, já vai com seu subconsciente programado, e por isso, pode desencadear tanta histeria e passar mal”, diz.

Desvendando o mistério

A física explica o que significa a movimentação dos lápis ou canetas na “brincadeira”. Ela acontece porque os objetos sobrepostos não estão em perfeito equilíbrio. Por causa do baixo atrito entre os dois e à força da gravidade, o lápis de cima sempre se moverá, a menos que tenham acertado o ponto exato de equilíbrio. A menor inclinação na superfície, o tremor mínimo de um passo ou a brisa de uma leve respiração já são suficientes para acabar com o estado de equilíbrio provisório e coagir o movimento. A ciência garante que o lápis vai se mover, mesmo sem uma folha de respostas embaixo, mesmo sem um ritual de invocação ou a presença de um “espírito”.

Orientação aos pais

Algumas crianças que participaram do Desafio Charlie Charlie ficaram perturbadas. Há relatos de meninos que não conseguiram dormir à noite após invocar o “espírito”. Com isso, muitos pais se desesperam por não saber como agir. Segundo a psicóloga Jandira Cunha, eles devem conversar com seus filhos para que não invoquem espíritos, não apenas na escola, mas em qualquer lugar. “Em Deuteronômio 18:10-14 vemos que qualquer tentativa de consultar os mortos, por mais curiosa e divertida que pareça, é uma forma de desagradar a Deus”, comenta. Ela também conta que os pais devem mostrar aos filhos as consequências dessa “brincadeira”. “E se a perturbação não passar, ore com ele e peça para que Deus tire todo o mal que pode estar em volta de vocês”, sugere. Em casos mais graves, é necessário buscar ajuda médica.

Na escola, os professores devem instruir os alunos a não “brincarem” com o oculto. E se presenciarem alguma cena em que o ritual está acontecendo, interromper e não deixar que se repita.

Origem

A origem do Desafio Charlie Charlie ainda é um mistério. Uma versão afirma que ela surgiu por causa de um demônio mexicano chamado Charlie. A BBC, emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido, investigou e concluiu que a “brincadeira” não é baseada em nenhuma cultura do México, afinal, se fosse assim, o demônio se chamaria “Carlitos” (Charlie em espanhol).

Outra versão aponta que o desafio não passa de uma campanha de marketing para divulgar o filme de terror “A forca” (The Gallows, 2015). No longa-metragem, alunos são assombrados pelo espírito de um menino que morreu anos atrás, dentro da instituição. O nome dele era Charlie.

 

Sobre Vanessa Moraes

Vanessa Moraes é jornalista da Seven Editora, empresa que publica as revistas Mais Destaque e Desbravar. Formada pelo Unasp campus Engenheiro Coelho, trabalhou na instituição como assessora de comunicação e também tem formação técnica em rádio e TV. Devoradora de livros, é apaixonada pelo seu trabalho e pretende mostrar Deus às pessoas através dele. Gosta de cantar e não perde a oportunidade de tomar aquele suquinho de laranja natural.

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